20/06/2012, show de Eduardo Gudin (e sua banda Notícias d'um Brasil) no Sesc Bom Retiro.
Um dos grandes do samba paulista, desde a época dos festivais, com liberdade pra fazer um show a seu gosto, reunindo membros de várias formações de sua banda. Uma apresentação irrepreensível da banda e de Gudin (nunca o havia visto tocar violão tão bem).
Não dá pra destacar um músico em especial, mas dá pra perceber que às vezes eles chegam a tocar com um receio muito grande de cometer qualquer deslize. Perfeccionismo do alemão. De qualquer forma, tenho que puxar a sardinha pro Maurício Santanna, que tantas vezes presenciei nas noitadas do Bom Motivo. Fez um solo tocando uma música inspirada no grande mestre Paulinho Nogueira. Foi lindo.
Mas tudo ficou pequeno quando chegou o convidado especial: Élton Medeiros, com seus mais de 80 anos, chegou a passinhos curtos até o microfone. É como ver o mestre Yoda do samba ao vivo. A primeira música foi muito emocionante, e o próprio Élton disse ter sentido a presença do Cartola ali na hora. Sucederam-se composições dele em parceria com Gudin, com Zé Keti, com o próprio Cartola, com o tiozinho esquecendo a letra (nem assim tirando o brilho do show), mas com a noção de tempo perfeita.
Showzaço!
terça-feira, 19 de junho de 2012
Concerto Osesp
Orquestra Sinfônica do Estado de São Paulo
Giancarlo Guerrero regente
Brasil Guitar Duo
PROGRAMA
Gioacchino ROSSINI
Guilherme Tell: Abertura
Paulo BELLINATI
Concerto para Dois Violões e Orquestra (estreia mundial)
Ottorino RESPIGHI
As Fontes de Roma
Belkis, A Rainha de Sabá: Suíte
Desta vez um regente convidado, o italiano Giancarlo Guerrero. Super carismático e performático, o cara foi um show à parte. Em partes cadenciadas de percussão, simulava passos gigantescos e fazia caretas, como se fosse um daqueles monstros de seriado japonês. Em outras horas, ficava parado e regia os instrumentistas apenas usando as sobrancelhas. Genial! Paquerava descaradamente as musicistas, ao mesmo tempo que demonstrava trejeitos nitidamente homossexuais (sem preconceito). Uma figura! Detalhes perceptíveis pra quem está no camarote 12.
A primeira peça foi a Abertura de Guilherme Tell, de Gioacchino Rossini, que todo mundo conhece. Se você acha que não conhece, a simples audição de um acorde traria lembranças de uma infância assistindo desenhos do Andy Panda, do Pica-Pau ou do Mickey (sim, crescemos ouvindo música clássica!!). O que é essa música ao vivo? Foi uma audição sensacional. De fazer metaleiro "bangear".
Sempre que ouço este tipo de peça executada pela Osesp, ou quando vejo (e ouço) a Jazz Sinfônica tocando qualquer coisa com arranjos do Cyro Pereira, penso em uma época em que todo estúdio de cinema ou qualquer rádio, ou qualquer rede de TV tinha sua própria orquestra. Certamente uma época muito mais rica musicalmente do que a que vivemos agora.
Devaneios à parte, voltemos ao concerto: a segunda peça foi um concerto do Paulo Bellinati para dois violões e orquestra. Acompanho o trabalho do Bellinati desde a época que arrisquei uns trinados no violão (ou seja, há mais de quinze anos). Depois disso, ouvi diversas músicas dele executadas por ases do instrumento, ouvi seus trabalhos na banda Pau Brasil (recomendação máxima) e acompanhei algumas parcerias (Mônica Salmaso nos afro-sambas e Weber Lopes). As peças que ele compôs para dois violões e orquestra são muito boas, mas a execução não ficou legal. A necessidade de microfonar os violões do Brasil Guitar Duo deixou o som dos instrumentos menos "orgânico" quando comparado aos instrumentos da orquestra, sem falar em um pequeno delay na chegada do som (dos violões) aos nossos ouvidos. Provavelmente um problema exacerbado pra quem está no camarote 12 (vantagens e desvantagens, certo?). Não tirou o brilho da estréia, mas ficou aquém de qualquer execução da orquestra.
Pra encerrar, duas peças de Ottorino Respighi. Esse sinceramente eu não conhecia. A primeira peça não trouxe nada de muito interessante. Sem falar na proliferação de instrumentos no palco: piano, cravo, duas harpas e metalofone, muitas vezes desempenhando tarefas que poderiam ser feitas por violinos em pizzicato.
Já a segunda peça foi bem interessante. Bem "bélica", se é que podemos aplicar esse adjetivo à música. Em alguns momentos me lembrou a trilha do filme Conan, o Destruidor (Basil Poledouris).
Fica a dúvida se o Rossini não deveria encerrar a noite, ao invés de abri-la. Acho que iríamos todos mais impressionados para casa.
segunda-feira, 11 de junho de 2012
De luto pela perda de Ivan Lessa, um de meus cronistas preferidos. Quem não conhece, corra atrás, pois vale muito a pena. Quem gosta das ironias encontradas ao assistir um episódio de House, "gaste" um pouquinho mais de cuca e leia um livro do Ivan. Não irá se arrepender.
Nesse momento, abro ao acaso uma página de Ivan Vê o Mundo e vejam a descrição de sua experiência ao montar um aparelho de som:
"Vou tentar resumir meu ingresso no clube nuclear, digo, agremiação compacta: às duas e meia, comecei a abrir caixas e folhetos de instrução; às sete horas, quando minha mulher chegou em casa, lá estava eu - suado, sujo, sem sorriso de vitória nos lábios, sem o ríctus da derrota no rosto, apenas a perplexidade do botocudo diante do Caramuru, digamos assim. Oquei, vá lá que seja, exagero, estou entre amigos. Mas o negócio estava e não estava funcionando. A bandeja que recebe o CD se ensimesmara e não havia jeito de comparecer, a um toque mágico de meus dedos calejados. A fiação lembrava vagamente o pior espaguete à bolonhesa servido em Serra Pelada e minha vista não mais conseguia distinguir um equalizador gráfico do rifle telescópico que matou Kennedy."
Nesse momento, abro ao acaso uma página de Ivan Vê o Mundo e vejam a descrição de sua experiência ao montar um aparelho de som:
"Vou tentar resumir meu ingresso no clube nuclear, digo, agremiação compacta: às duas e meia, comecei a abrir caixas e folhetos de instrução; às sete horas, quando minha mulher chegou em casa, lá estava eu - suado, sujo, sem sorriso de vitória nos lábios, sem o ríctus da derrota no rosto, apenas a perplexidade do botocudo diante do Caramuru, digamos assim. Oquei, vá lá que seja, exagero, estou entre amigos. Mas o negócio estava e não estava funcionando. A bandeja que recebe o CD se ensimesmara e não havia jeito de comparecer, a um toque mágico de meus dedos calejados. A fiação lembrava vagamente o pior espaguete à bolonhesa servido em Serra Pelada e minha vista não mais conseguia distinguir um equalizador gráfico do rifle telescópico que matou Kennedy."
domingo, 10 de junho de 2012
"Dessa maneira, separou-se o ócio do trabalho, porque o primeiro já não tolerava a convivência com o segundo, ao contrário do que fora a tônica da sociedade do Império. O mundo do trabalho torna-se assim invisível para a sociedade burguesa. Ele é realizado longe dos seus olhos, em locais distantes; a energia elétrica flui em fios que estão acima do seu campo de visão; a água corre em encanamentos subterrâneos; a coleta do lixo e os reparos nas instalações são feitos à noite; os alimentos são comprados embalados e esterilizados; os carros têm o motor encoberto e só os estofamentos luxuosos ficam à vista. Verifica-se toda uma estratégia de ocultamento do universo do trabalho: os motoristas e condutores ficam isolados numa cabina à parte; os empregados públicos e domésticos são submetidos a uniformes que identificam a posição, as tarefas e o espaço que lhes cabe; as cozinhas e respectivos empregados desaparecem das vistas dos restaurantes, leiterias e confeitarias; a área de serviço passa a ser criteriosamente demarcada e separada da área social das residências, que adotam também portas e elevadores laterais exclusivos para seus serventes. É o sortilégio da exclusão: vive-se num mundo rico e exuberante, que se sustenta por si mesmo, embalado pelo tilitar melódico do metal precioso e rutilante."
mais adiante, resumidamente:
"Ninguém mais suporta ver um boi sendo morto a marteladas, mas também ninguém dispensa um bom filé, aromático e fumegante: melhor então não ver o boi."
do livro
A Revolta da Vacina
Nicolau Sevcenko
Recomendação de Renato Casella e, a partir de agora, recomendação máxima minha.
Li numa tacada só enquanto tomava sol na piscina (foi há alguns meses) e gostei muito. Esta edição (reedição da Cosac Naify, de 2010 - o original é de 1983) ainda traz um posfácio em que o autor fala sobre o que ele chama de Política Social Remediadora, em que descreve o total desinteresse do governo em erradicar a pobreza. É muito mais interessante torná-la massa de manobra política.
Certa vez, eu estava em uma livraria e um livro me chamou a atenção pela capa. O livro em si acabou não interessando (desculpem a falta de citação, mas a memória e o google não ajudaram), mas logo corri as páginas para descobrir de quem era a ilustração. Tratava-se de Nighthawks, um óleo sobre tela de Edward Hopper, de 1942.
Agora, relendo Batman Ano Um, de Frank Miller e David Mazzucchelli, eis que me deparo com um quadrinho onde o Jim Gordon está com Sarah Essen, num café chamado Hopper.
Grande homenagem, duas obras primas.
Agora, relendo Batman Ano Um, de Frank Miller e David Mazzucchelli, eis que me deparo com um quadrinho onde o Jim Gordon está com Sarah Essen, num café chamado Hopper.
Grande homenagem, duas obras primas.
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